31 de jul de 2010

Prudência, Virtude Cardeal


Conforme o Catecismo da Igreja Católica “a prudência é a virtude que dispõe a razão prática a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo. “O homem sagaz discerne os seus passos” (Pr 14,15). “Sede prudentes e sóbrios para entregardes às orações” (1 Pd 4,7). A prudência é a “regra certa da ação”, escreve Sto. Tomás citando Aristóteles. Não se confunde com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação. E chamada “auriga virtutum” (“cocheiro”, isto é “portadora das virtudes”), porque, conduz as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. É a prudência que guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena sua conduta seguindo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a praticar e o mal a evitar.”[1]
“Como a alma humana está sempre inclinada ao erro, mesmo quando possui as virtudes que a ajudam a agir bem, o Espírito Santo enche nossa alma com o dom de Conselho, pelo qual somos levados infalivelmente ao reto juízo sobre os atos que devemos realizar.” “J. Pieper situa a prudência como a primeira das virtudes e aquela que dá forma a todas as outras, ou seja, não há virtude sem a prudência. Postula que se o bem pressupõe a verdade e a verdade o ser, a realização do bem exige um conhecimento da verdade. Este saber não é o que dá a ciência, mas se refere ao contato efetivo com a realidade objetiva. O homem prudente é aquele que contempla a realidade objetiva das coisas e ao mesmo tempo o que quer e o que faz. Só a prudência aperfeiçoa a retidão impulsiva e instintiva do agir, as disposições naturalmente boas, para elevar-se ao grau de autêntica virtude. Enfatiza, no entanto, que a prudência não aponta diretamente aos últimos fins da vida humana, mas às vias que conduzem a tais fins. Na sua ação percorre três graus distintos e interligados: a deliberação, o juízo e a execução.
Tanquerey define a prudência como: “virtude que inclina o nosso entendimento a eleger, em todas as ocasiões, os meios mais apropriados para nossos fins, subordinando estes a nosso último fim. “ Destaca também três condições necessárias para o agir prudente: deliberar com maturidade, decidir com sabedoria e executar adequadamente. A deliberação deverá ter em conta o passado, o presente, o futuro e também a possibilidade de consulta a pessoas mais experimentadas na ação específica. Na decisão devem ser deixados de lado as paixões, as imprecisões, e os possíveis prejuízos como elementos perturbadores, examinando a fundo as razões que nos inclinam a uma ou outra parte, decidindo por fim, sem vacilações excessivas. Na execução não se deve retardar o que foi decidido e ter em conta os elementos de previsão para pôr o esforço proporcional à ação, considerando as pessoas e coisas que serão afetadas pela ação e tomando as devidas precauções para as possíveis falhas. “[2]

Etimologia

  A palavra prudência deriva do latim prudentia, que significa prudência, previdência, previsão, sabedoria, tino, inteligência, sagacidade, ciência. Aristóteles chamava a prudência, no grego, de phronêsis, termo traduzido muitas vezes por “sabedoria prática”, ou “discernimento”, e a definia como a excelência moral que leva à reta razão relativa à conduta humana. Prudência, na mitologia romana é uma deusa, que tem também a correspondente deusa grega, Métis. Segundo Raimundo Lullio, a prudência (sophrosyne - phronesis) é aquela virtude por cuja razão os homens sábios elegem aquilo que é bom (agathom), e evitam aquilo que é mau (katom), e amam os maiores bens em lugar dos menores, e temem mais os maiores males que os menores. A prudência principalmente é parte do entendimento (logistikon);  porque como o óleo de oliva dentro do barril de carvalho recebe dele o sabor e o cheiro, assim o entendimento habituado e revestido da prudência atrai a si a sua natureza, aquilo que está sob o hábito da prudência: bondade, grandeza, perseverança. Por isso, a prudência cresce na medida que os hábitos tomam o entendimento, a memoria e a vontade. E quando se perdem os hábitos ou se chega à privação deles, tem maior culpa o entendimento que a memoria e a vontade, porque a prudência mais participa com o entendimento, que com a memoria e a vontade. A prudência ilumina com a experiencia (aisthesis) os bons e grandes objetivos à vontade e à memoria, e por isso os amigos da prudência inquirem as experiências das coisas que se podem ver, imaginar, recordar, amar, e também ouvir, saborear e tocar. E neste inquirimento e pesquisa pensam muito tempo, até que a luz tenha iluminado a memória e vontade, para que seja feita a escolha ou eleição daquilo que é bom para amar, recordar e entender, ou para aborrecer. E em qualquer tempo a memória ajuda a fazer a eleição e o juízo, enquanto recorda as semelhanças de primeira natureza, ou as diferenças delas. Por isso a memória dispõe a vontade para recordar a amabilidade das semelhanças ou a ruindade das diferenças, para que a vontade se mova a amar a semelhança da bondade e da grandeza real e assim aborrecer as diferenças. Por isso, quando o entendimento e a memória tem concordância para representar as semelhanças para a vontade, contra as más semelhanças, inclinam-na a amar a prudência e aborrecer seus contrários, sendo assim que o poder é maior no entendimento e memória que na vontade. Não obstante, algumas vezes sucede que a memória e o entendimento representam a vontade. Boas semelhanças e más, e a vontade elege ou escolhe as más e repele as boas. E isso ocorre porque o entendimento e a memória usam de menor poder e da menor grandeza da bondade, perseverança, virtude e verdade, e que a memória recorda menores fins, e se esquece dos fins maiores.

Aspecto teológico-ascético

“O homem prudente, que se aplica a tudo o que é verdadeiramente bom, esforça-se por medir todas as coisas, todas as situações e todo o seu operar, pelo metro do bem moral. Prudente não é, pois aquele que — como muitas vezes se entende — sabe arranjar-se na vida e sabe tirar dela o maior proveito; mas aquele que sabe construir toda a sua existência segundo a voz da reta consciência e segundo as exigências da moral justa. Assim a prudência constitui a chave para a realização do encargo fundamental que Deus confiou a cada um. Este encargo é a perfeição do próprio homem. Deus entregou a cada um de nós a humanidade que tem é necessário que nós correspondamos ao encargo recebido programando-o como ele requer.
Mas o cristão tem o direito e o dever de observar a virtude da prudência, também noutra perspectiva. A prudência é como imagem e semelhança da Providência de Deus nas dimensões do homem concreto. Porque o homem sabemo-lo pelo livro do Gênesis, foi criado à imagem e semelhança de Deus. E Deus realiza o Seu plano na história da criação e, sobretudo na história da humanidade. A finalidade deste desígnio é , como ensina São Tomás, o bem último do universo. O mesmo desígnio torna-se, na história da humanidade simplesmente o desígnio da salvação, o desígnio que diz respeito a todos nós. No ponto central da sua realização encontra-se Jesus Cristo no qual se expressou o eterno amor e a solicitude do próprio Deus, Pai, pela salvação do homem. Esta é, ao mesmo tempo, a plena expressão da Divina Providência. Pois bem, o homem que é a imagem de Deus, deve ser, como de novo ensina São Tomás, de certo modo, a providência. Mas na medida da sua vida. Ele pode participar neste grande caminho de todas as criaturas para o termo, que é o bem do que foi criado. Deve,  exprimindo-nos ainda mais na linguagem da fé, participar no divino desígnio da salvação. Deve caminhar para a salvação e ajudar os outros a salvarem-se. Ajudando os outros, se salva a si mesmo.” [3]

Aspecto Místico

Vamos seguir aqui o que diz São João da Cruz. O Doutor Místico escreve que a prudência é a sabedoria dos santos, aquele que a possui sabe dirigir a vontade para Deus, praticando com perfeição sua lei e seus conselhos.[4] “Os mais sábios, segundo a sabedoria dos santos, deixam tudo para seguir o Cristo e dar-se inteiramente a Deus. Consagram a sua vida a Deus e entregam-se a um esforço ascético para atingir a perfeição na pureza do seu amor por ele. O Espírito Santo depressa lhes ensina que a contemplação não é um bem que tomamos por nós mesmos, mas um bem que nos é dado. Não devemos, pois, tentar consegui-la com esforços da inteligência, mas sim usar a razão, a serviço da fé, para dirigir cada ação e cada desejo para Deus e a sua glória.” [5]




Aspecto prático

“Ao longo de cinco dias, criou Deus muitas coisas e viu que tudo o que tinha feito era bom, já que tudo participava do seu Ser, que é o próprio Bem. No sexto dia, porém, conferiu existência a um ente que não somente estaria imerso no mundo, como os demais seres, mas que poderia compartilhar com Ele de toda a criação, através de uma alma espiritual, que quer pela vontade e que conhece por meio do intelecto. Tal é o homem, que recebeu o Ser em tamanha intensidade que, por meio de suas faculdades espirituais, está aberto para a totalidade do real, para o que lhe é exterior e para o que lhe é interior. Sua particular abertura para o real, manifesta o homem como uma criatura cuja natureza é inacabada e ele se apresenta enquanto um ser-em-construção, um “projeto” para o qual a responsabilidade que lhe cabe é a de dar prosseguimento e, em última instância, já em um plano ideal, termo.
O homem nasce inacabado. É justamente neste ponto que reside a razão última de sua existência já que ele está no mundo para completar (“passar a limpo em realidade-ato”) a criação divina, realizando-se a si próprio em meio a um processo para o qual o poeta Píndaro já há muito chamou a atenção: “Torna-te o que és!” Descobrir o que ele próprio é (o seu quid) nesse emaranhado no qual se encontra e agir em conformidade com isto são, ao mesmo tempo, os grandes problemas e as grandes soluções da existência do homem. Ele se constrói no próprio ato de ser e está chamado a ser o que é, nem mais, nem menos. Sua virtude está exatamente nesse meio termo e essa é a parte que lhe cabe na continuação do projeto divino, a partir do qual foi criado. Embora incompleto, o ato criador de Deus não deixou o homem desamparado para sua missão auto-realizadora, ao contrário, “equipou-o” com os instrumentos necessários. Assim, à semelhança do Criador que fez o mundo e “viu que ele é bom”, o homem tem, por natureza, uma atitude de amor, ou seja, de afirmação do que é. Amar alguém, alguma coisa ou lugar é, antes de tudo, reiterar o ato que o criou, aprovando-o. É, em última instância, compartilhar com o Criador do sentimento que o moveu à criação. É no agir que o homem se faz, na medida em que as ações que pratica sejam condizentes com a sua condição de abertura para a totalidade do real, traduzindo, neste sentido, a razão reta ao agir. Tal é o meio para se atingir o bem humano, qual seja, a sua auto-realização, o que é assunto da prudência (naturalmente, “prudência”, aqui, no sentido clássico de prudentia - a recta ratio agibilium). A prudência aparece, deste modo, enquanto razão prática e sabedoria concernente às coisas humanas. É a partir dessa virtude que o homem pode aplicar o conhecimento da realidade à realização do bem, como “proa inteligente”, nas palavras de Paul Claudel. Ela orienta o homem para o ser, para a perfeição do “fazer a verdade” (Jo 3, 21) através da ilimitada variedade que constitui o mundo. Todas as demais virtudes têm na prudência a matriz, já que a realização do bem, em qualquer aspecto ou situação só se dá em conformidade com a realidade e verdade das coisas, precisamente discernida pela prudência. Não adianta, por exemplo oferecer um casaco bem felpudo a quem tem fome em um dia de verão, mesmo que as intenções do doador sejam as melhores possíveis, sua ação não condiz com a realidade das coisas e, portanto, não atinge o objetivo proposto de fazer o bem. Assim, embora o sujeito tenha tido a vontade de fazer o bem, não foi orientado em sua ação pelo conhecimento da realidade.
Neste sentido, é por meio da prudência que o homem atinge a liberdade mais verdadeira que é ser capaz de agir como realmente quer, ou seja, uma ação que concretize suas aspirações naturais para o bem. A conquista desta liberdade é exatamente o que cabe ao homem na busca e realização de si próprio. Para tanto, ele conta com sua capacidade natural de abertura para a o mundo, que se dá por meio tanto da vontade (apetite espiritual) quanto da inteligência (conhecimento espiritual). É por meio, então destas duas vias que a ação prudente pode tomar forma, sendo ela constituída por duas etapas complementares. A primeira delas é de caráter cognoscitivo e diz respeito ao exame da realidade por meio da razão (entendida aqui como todas as formas de posse da realidade) que aconselha e julga o que é de acordo com o real, ou seja, com o bem humano. A segunda delas, mais importante até (já que se trata da razão prática, ligada ao agir), tem caráter diretivo e é aquela pela qual o sujeito age conforme aquilo que aconselha e julga como bom (oferecendo, por exemplo, comida e não qualquer outra coisa a quem tem fome). Estes dois requisitos indispensáveis à prudência fazem com que ela seja acessível apenas aos seres humanos, graças às faculdades espirituais de sua alma, que lhe proporcionam abertura para a realidade, como também por meio dos sentidos externos, próprio de todos os seres viventes, e dos sentidos internos. As capacidades proporcionadas por tais sentidos atuam de modo a constituir a prudência, como partes que lhe integram:
Memória: a prudência é gerada e desenvolvida pela experiência e pelo tempo. A experiência resulta da memória dos casos repetidos. Considera-se, assim, que os velhos estejam “mais aparelhados” do que os jovens para agir prudentemente, embora a prudência não lhes seja exclusiva e - tal como o “velho do Restelo” - tenham uma propensão para o pessimismo.
Intelecto: todo o processo da razão procede do intelecto e a prudência é, justamente, a aplicação da razão reta aos atos.
Docilidade: como os casos particulares são infinitamente diversos e não podem ser considerados por um único homem, é necessário que o homem esteja pronto para receber o ensino: da realidade e de outrem. Precisa estar aberto a aprender (e apreender) a realidade com suas próprias experiências.
Solércia: para a reta apreciação do que deve fazer, o indivíduo precisa estar pronto a descobrir o que convém a cada situação.
Razão: uma das partes do agir prudente, o conselho (inquirição, o passar de uma coisa para outra, aconselhar-se consigo mesmo), que é necessário ao raciocínio acertado, é função da razão. É pelo conselho que a prudência é aperfeiçoada, já que seu objeto são os meios a serem postos em prática em vista do bem humano. O conselho e a prudência são, então, correlatos.
Providência (ver de longe): determina com antecedência, prevendo se determinado ato será ou não verdadeiro caminho para a realização do bem. É a principal parte da prudência.
Circunspecção: ao contrário do significado de “introspecção carrancuda” que a este termo atualmente atribuímos na linguagem comum, trata-se aqui do exame e da comparação dos meios, levando em consideração as circunstâncias que se apresentam na realidade. Para o agir prudente, tanto os meios quanto os fins devem ser bons, o que é contingente devido à infinidade de circunstâncias possíveis.
Cautela: versa sobre os atos contingentes no sentido de que o mal seja evitado, mesmo estando mesclado com o bem, devido à multiformidade dos atos.
Para a realização da ação prudente, o homem conta, também, com algumas virtudes que, como partes potenciais, são anexas à prudência. São elas:
Eubulia: indagação racional sobre as ações que se deve praticar, o que proporciona a retidão em deliberar. Tal virtude, diferentemente da prudência, não é preceptiva, a ela cabe apenas, ordenar para a prudência.
Sínese: virtude que faz o homem julgar acertadamente.
Gnome: perspicácia de juízo que se aplica ao julgamento de casos que fogem às regras comuns.
De acordo com o tipo e o domínio das ações que se realizam, a prudência pode ser classificada em espécies distintas entre si, cada uma das quais corresponde uma parte subjetiva da prudência:
A arte de legislar ou de reinar: a prudência é a virtude própria do governante, a quem convém uma prudência de natureza especial e perfeitíssima, já que a sua administração, para ser perfeita, deve estar ligada à razão.
Política: é a prudência pela qual dispomos convenientemente o que pertence ao bem comum. Corresponde à retidão de direção que os indivíduos devem ter para que dirijam a si próprios na obediência das regras e leis estabelecidas para a vida em sociedade.
Econômica: corresponde à boa direção da vida no que se refere à sociedade doméstica.
Militar: prudência especial, que dirige particularmente as atividades militares. “[6]

Pecados contrários à virtude da Prudência: Soberba e Imprudência

“Com relação à prudência, a reta razão de agir, que ordena e inclina a razão ao fim último que é Deus, se contrapõe o vício: soberba: apetite desordenado da própria excelência e início de todos os vícios [STh.I-II,q84,a2,c].”[7] “São Tomás de Aquino considerou a soberba um pecado específico, embora possa ser encontrado em todos os outros pecados. A soberba é a forma básica do pecado. Ela teria sido a responsável pela desobediência de Adão, que provou o fruto proibido com a ambição de se tornar Deus. A soberba leva o homem a desprezar os superiores e a desobedecer as leis. Ela nada mais é que o desejo distorcido de grandeza. A pessoa que manifesta a soberba atribui apenas a si próprio os bens que possui. Tem ligação direta com a ambição desmedida, a vanglória, a hipocrisia, a ostentação, a presunção, a arrogância, a altivez, a vaidade, e o orgulho excessivo, com conceito elevado ou exagerado de si próprio. “[8]
Imprudência: A prudência pode ser impedida tanto por meio de vícios que incidam sobre suas partes referentes ao conhecimento (conselho e julgamento), quanto naquela que se refere ao desejar e agir. Tais vícios correspondem, então, a duas categorias distintas e dão origem a dois tipos de imprudência, quais sejam, por irreflexão (ligadas ao conhecimento) e por indecisão (referentes ao desejar e agir). Podemos classificar as imprudências, também, por outros dois critérios e temos então um tipo que se traduz em vícios manifestamente contrários à prudência e outro tipo que, embora também se oponha à prudência, guardam certa semelhança com ela. No primeiro dos casos, encontramos os vícios que se afastam das regras que tornam o agir de acordo com a razão reta. São vícios que têm como matriz principal a luxúria, ou seja, o fato de que a ponderação que caberia à tomada de decisão e à ação é corrompido pela sôfrega e descabida busca de prazer. Assim, o agir é imprudente devido a: Precipitação: que corresponde à ação movida pelo ímpeto da vontade ou da paixão, o que tem como resultado a desordenação do conselho. Em casos como este o sujeito age sem se ater aos passos ou etapas necessários à razão reta, quais sejam: memória das coisas passadas, inteligência das recentes, solércia no considerar os acontecimentos futuros, raciocínio e docilidade. Inconsideração: falta de retidão do juízo. É, portanto, uma falha no ato de ajuizar o que já foi observado a partir da realidade. A este vício se opõem as seguintes partes integrantes da prudência: circunspecção e cautela; e as potenciais: sínese e gnome. Inconstância: abandono de um bem maior a que antes se propunha em vista de paixões que desordenam a vontade. Falha-se, portanto, no ato de ordenar o que fora aconselhado e julgado pela razão. Ainda neste domínio das imprudências, encontra-se a negligência que constitui um pecado especial oposto à prudência devido à falta de solicitude do sujeito que empreende a ação. Trata-se de uma falta de eleição reta dos meios conducentes ao fim, o que é peça fundamental e decisiva do agir prudente. O segundo tipo de imprudência diz respeito aos vícios que, embora sejam opostos à prudência, guardam semelhança com ela por implicarem um certo uso da razão. Esse tipo de vício nasce da avareza, ou seja, da desmedida aspiração por toda a espécie de posse. O primeiro deles é chamado de “prudência da carne” e se traduz na aplicação de esforços com vistas a um fim que não está ligado ao bem humano, ao contrário, é o bem da carne que é eleito como fim último da vida. Chamaríamos, então, de imprudentes as ações pautadas exclusivamente por objetivos relacionados ao sucesso profissional, amoroso, financeiro, etc. e desvinculadas do bem do homem. Outro vício que guarda certa semelhança com a prudência é a astúcia, que corresponde ao uso de meios não verdadeiros com vistas a atingir um determinado fim. A astúcia é, então, aplicada ao enganar e compreende, em sua execução, ao dolo, ou seja, o induzir outrem ao erro por meio de atos ou palavras, e a fraude, que se aplica à execução da astúcia por meio de atos. Ainda no que se refere a este tipo de vício que apresenta certa semelhança com a prudência, temos uma outra espécie ainda mais sutil que é a solicitude por coisas temporais e não por bens espirituais. De três formas este vício pode se apresentar: se tomarmos as coisas temporais como o fim último de nossas ações, se nossos esforços forem demasiado exagerados (o que pode nos afastar dos bens espirituais) ou se tivermos temor exagerado em não alcançar nossos objetivos. A imprudência parece, assim, caracterizar a vida do homem moderno tão cheio de cobranças para que ele realize coisas (ganhe dinheiro, pague as contas em dia, case, compre coisas, estude, seja saudável, seja politicamente correto...). E mais, a solicitude também pode se converter em vício se for aplicada ao futuro, assim, não são prudentes as preocupações, o que torna ainda mais difícil a verificação de uma postura prudente em nossos dias. Entre nós, ao contrário, tem-se que prudente é aquele que tem uma gorda poupança no banco para lhe garantir a velhice.”[9]

Santa Clara e a virtude da Prudência
Escritos de Santa Clara

“Em sua prudência você certamente saberá que, com exceção das fracas e das doentes, para quem exortou-nos e até mandou usar de toda discrição possível com respeito a qualquer alimento, nenhuma de nós que fosse sadia e forte deveria comer senão alimentos quaresmais, tanto nos dias feriais como nos festivos, jejuando todos os dias. Entretanto, como não temos carne de bronze nem a robustez de uma rocha (Jó 20,6-7), pois até somos frágeis e inclinadas a toda debilidade corporal, rogo e suplico no Senhor, querida, que deixe, com sabedoria e discrição, essa austeridade exagerada e impossível que eu soube que você empreendeu.” [10]

Na quaresma de São Martinho e na quaresma maior, ninguém fale no locutório, a não ser ao sacerdote para se confessar ou por outra necessidade manifesta, o que está reservado à prudência da abadessa ou de sua vigária.” [11]

Não ousem trazer os boatos do mundo para dentro do mosteiro. E sejam firmemente obrigadas a não contar fora do mosteiro o que se fala ou se faz dentro que possa causar algum escândalo. Se alguma incorrer nesses dois pontos por simplicidade, cabe à prudência da abadessa dar-lhe a penitência, com misericórdia.” [12]

Fontes históricas

“Por isso, tendo abandonado a casa, a cidade e os parentes, apressou-se para Santa Maria dos Anjos, onde os frades, que montavam sentinela no recinto de Deus, receberam a virgem prudente que ia ao encontro de Esposo com a lâmpada não vazia, carregando eles mesmos fachos ardentes nas mãos.” [13]

 “A testemunha também disse que, sendo dona Clara abadessa do predito mosteiro, portou-se tão santa e prudentemente em seu governo, e Deus mostrou tantos milagres através dela, que todas as Irmãs e todos os que tiveram conhecimento de sua vida têm-na e reverenciam-na como santa.” [14]

“E as Irmãs creem que a santa madre intercede a Deus por elas no céu, ela que as governou na terra tão prudente, benigna e vigilantemente na Religião e no propósito da pobreza.” [15]

 “Também disse que tinham sido tão grande sua prudência e custódia na exortação das Irmãs suas súditas, que a sua língua não poderia dizer ou compreender de modo algum.” [16]

“E disse que no tempo em que entrou na Religião ela (Clara) era uma jovem prudente, com cerca de dezoito anos, e estava sempre em casa.” [17]


[1] Catecismo da Igreja Católica 1806.
[2] LUCCAS, Paulo. As virtudes fundamentais.
[3] Papa João Paulo II.
[4] Cf. 2S 29,12.
[5] MERTON, Thomas. Ascensão para a Verdade. Ed. Itatiaia, Belo Horizonte, 1958.
[6] Flávia Medeiros Sarti. Prudência e Educação Moral.
[7] www.aquinate.net
[8] Rosemeire Zago. Sete Pecados Capitais.

[9] Flávia Medeiros Sarti. Prudência e Educação Moral.
[10] 3CtIn 31-32.38-40.
[11] RSC 5,16-17.
[12] Idem, 9,16-18.
[13] LSC 15.
[14] ProcC 12,6.
[15] Idem, 13, 3.
[16] Ibidem, 14,4.
[17] Ibidem, 17,4.

Um comentário:

  1. Irmãs Clarissas, novamente parabenizo pelo trabalho.
    Silvério Luiz Soligo

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