31 de jul de 2010

Virtudes Cardeais


Na Igreja Primitiva, desde a Antiguidade cristã e até os nossos dias atuais, com base nas Escrituras, as virtudes cardeais foram aprofundadas pelos Padres da Igreja e pelos místicos de forma impressionante e profunda, sendo que essas virtudes gonzos da vida humana foram classificadas já muito antes pelos filósofos pré-cristãos em seus escritos e estudos. Cristãos estudaram e elucidaram de maneira mística e ascética, espiritual e prática, classificando de diferentes formas também todas as demais virtudes humanas, intelectuais e morais cristãs, que estão diretamente ligadas ou fundamentadas nessas principais virtudes cardeais
As virtudes humanas adquiridas pela educação, por atos deliberados e por uma perseverança sempre retomada com esforço são purificadas e elevadas pela graça divina. Com o auxílio de Deus, forjam o caráter e facilitam a prática do bem. O homem virtuoso sente-se feliz em praticá-las. Não é fácil para o homem ferido pelo pecado manter o equilíbrio moral. O dom da salvação, trazida por Cristo, nos concede a graça necessária para perseverar na conquista das virtudes. Cada um deve sempre pedir esta graça de luz e de fortaleza, recorrer aos sacramentos, cooperar com o Espírito Santo, seguir seus apelos de amar o bem e evitar o mal. (Catecismo da Igreja Católica 1810-1811) Virtude é uma disposição estável e firme em ordem a praticar o bem. A virtude revela mais do que uma simples potencialidade ou uma aptidão para uma determinada ação boa: trata-se de uma inclinação. Virtudes são todos os hábitos constantes que levam para o bem, quer pessoalmente, quer coletivamente. É uma disposição constante e habitual que leva a praticar o bem e evitar o mal. Denomina-se virtude o hábito operativo bom e vício o hábito operativo mau. Hábito é ação voluntária e livre que se repete.
A virtude como disposição habitual reveste a natureza de quem opera ou age, de tal modo que imprime na pessoa uma força. Disso vem o termo virtude, que realiza melhor a perfeição que existe na natureza e torna melhor a operação de quem a possui. Por isso, a virtude torna melhor quem a possui e dispõe quem a possui para a boa operação. Mas o mesmo se diz do vício que, sendo um hábito mau, imprime na natureza de quem o possui uma má disposição, enquanto lhe priva de algum bem ou perfeição natural. Este hábito é de difícil remoção e cada vez mais pela força que adquire dificulta e até impossibilita a realização ou a aquisição de algum bem ou perfeição natural próprio ou que lhe convenha. Este hábito porque opera contra a natureza é antinatural. E porque este hábito se realiza mediante algum ato ou operação, diz-se que sua repetição torna pior o ato e, por sua vez, a natureza de quem possui este hábito mau.
A virtude aperfeiçoa quem a possui: de qualquer maneira, é mais fácil adquirir um hábito bom do que remover um hábito mau, justamente por causa da influência das paixões sobre o que é voluntário; e isso se confirma ao constatarmos que as paixões são iminentes e muito dependentes frente àquilo que as experiências sensíveis, rotineiramente, nelas causam inclinação ou aversão. São propriedades das virtudes: ser o justo meio termo entre o excesso e a deficiência; tornar a ação fácil e deleitável; relacionar-se com outras virtudes e com o fim último e não se verter em mal. As virtudes morais são adquiridas pela repetição dos atos. Regra que, também, vale e se aplica aos vícios. Neste sentido temos: o ato repetido gera o hábito e o hábito, segundo o bem ou o mal, gera ou a virtude ou o vício. E porque a ação humana pode ser a nível especulativo ou prático, há, por isso, os hábitos especulativos e os práticos e, do mesmo modo, as virtudes e os vícios especulativos e práticos. Tipos de virtudes: As virtudes se dividem em virtudes intelectuais, que pelo hábito dos princípios da razão teórica, adquirem ou realizam algum bem ou perfeição do intelecto; e em virtudes morais, que pelo hábito dos princípios da razão prática, adquirem ou realizam algum bem ou perfeição da vontade e dos apetites sensíveis que são: concupiscível e irascível. As virtudes intelectuais se dividem em especulativas e práticas. A virtude intelectual especulativa inclina o intelecto, perfeitamente, para a verdade universal. O intelecto, hábito dos primeiros princípios especulativos, orienta o homem para a verdade, evitando o erro e o engano. A sindéresis, verdade absoluta, como capacidade dos seres humanos de entender retamente as coisas, hábito dos primeiros princípios práticos, inclina para a busca do bem, justamente na medida em que evita o mal. A sabedoria, como hábito de considerar a realidade por sua causalidade última, na medida que não procura o conhecimento das coisas por si mesmas, mas por aquilo que elas indicam para além de si mesmas, transcende o intelecto e a sidéresis. A virtude intelectual prática inclina o intelecto para o reto juízo, aqui e agora, acerca da ação particular. São virtudes intelectuais práticas a arte, a reta razão do fazer; e a prudência, a reta razão do agir.
As virtudes morais se dividem em quatro virtudes, ditas cardeais, sendo que sobre elas se fundam todas as outras virtudes. São estas as Virtudes Cardeais: a prudência, que é virtude racional por essência e se dispõe a aperfeiçoar a razão; a justiça, que é racional por participação e dispõe ordenar a vontade; a fortaleza, que modera o apetite sensitivo irascível e a temperança, que modera o apetite sensitivo concupiscível. Como regra geral, a importância da virtude está em que ela torna bom aquele que a possui e boa a obra que ele faz. Como regra geral, a importância da virtude está em que ela torna bom aquele que a possui e boa a obra que ele faz. Aspecto Prático da Virtude: Além do aspecto teórico da sua conceituação, estritamente conexo com o sistema filosófico no qual se enquadra, a ética apresenta um aspecto prático de vivo e permanente interesse: como formar e desenvolver a virtude. É o campo da psicologia educacional e da pedagogia. Um formador ou educador precisa antes de tudo dar o bom exemplo.

Etimologia

Virtude, do latim virtus, virtute, virtutis, de vir, viril, força, vigor; do grego, ρετή, arèté, arete, força; designa toda excelência própria de uma coisa, em todas as ordens de realidade e em todos os domínios. Segundo os dicionários, uma disposição constante, habitual ou firme da alma que levam o homem a praticar o bem ou a evitar o mal, equivalendo a uma força moral; Virtude é o conjunto de todas ou qualquer das boas qualidades morais; uma ação virtuosa; austeridade no viver; qualidade própria para produzir certos e determinados resultados; propriedade, eficácia; validade, força, vigor. A virtude caracteriza-se pela héxis ou habitus, que significa uma disposição para viver a virtude: é definida como uma maneira de ser adquirida. O latim traduziu héxis por habitus. A virtude só será héxis ou habitus se for retirado desse termo o caráter de disposição permanente e costumeira, mecânica, automática.  Outra característica da virtude e a mediedade (mésotès), estar no meio, no equilíbrio; termo que remete ao termo médio de um silogismo e também à média ou medida, ou ao meio termo, que caracteriza a virtude.
Cardeal, Cardeais, vem do latim cardo, cardinis, em português gonzo ou eixo ou dobradiça, algo que gira. As Virtudes Cardeais são como que gonzos que sustentam todas as outras virtudes. São virtudes adquiridas pelo esforço. As virtudes cardeais são aquelas virtudes essenciais nas quais todas as outras decorrem. São em número de quatro: prudência, justiça fortaleza e temperança. Funcionam como gonzos ou dobradiças, pois todas as outras devem girar ao redor destas. Prudência: é aquela virtude que permite ao entendimento reflexionar sobre os meios conducentes a um fim racional.  Fortaleza ou valentia: consiste na disposição para, em conformidade com a razão, isto é, em atenção a bens mais elevados, vencer os perigos, suportar males e não retroceder, nem mesmo ante a morte. Temperança: consiste em aperfeiçoar constantemente a potência sensitiva, de modo a conter os prazeres sensuais da gula e do sexo dentro dos limites estabelecidos pela sadia razão. Justiça: consiste ela na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e valor que são devidos a Deus, a alguém ou a alguma coisa.

História do Conhecimento das Virtudes na Filosofia

Sócrates (470-399 a.C.): O estudo da virtude se inicia com Sócrates, para quem a virtude é o fim da atividade humana e se identifica com o bem que convém à natureza humana. Na sua conceituação, comete dois erros: confunde a ordem moral com a ordem do conhecimento; exagerado otimismo.
Platão (429-347 a.C.): Desenvolve a doutrina de Sócrates. Apresenta a virtude como meio para atingir a bem-aventurança. Descreve as quatro virtudes cardeais: a sabedoria, a fortaleza, a temperança e a justiça.
Aristóteles (384-322 a.C.): Ao conceito já esboçado como hábito, isto é, de qualidade ou disposição permanente do ânimo para o bem, Aristóteles acrescenta a análise de sua formação e de seus elementos. As virtudes não são hábitos do intelecto como queriam Sócrates e Platão, mas da vontade. Para Aristóteles não existem virtudes inatas, mas todas se adquirem pela repetição dos atos, que gera o costume (mos), donde o nome virtude moral. Os atos, para gerarem as virtudes, não devem desviar-se nem por defeito, nem por excesso, pois a virtude consiste na justa medida, longe dos dois extremos. Em sua Ética a Nicômaco, II, 6, diz: “A virtude é portanto uma disposição voluntária adquirida, que consiste, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de alguém ponderado. Ela ocupa a média entre duas extremidades lastimáveis, uma por excesso, a outra por falta. Enquanto nas paixões e nas ações o erro consiste ora em manter-se aquém, ora em ir além do que é conveniente, a virtude encontra e adota uma justa medida. Por isso, embora a virtude, segundo sua essência e segundo a razão que fixa sua natureza, consista numa média em relação ao bem e à perfeição, ela se situa no ponto mais elevado”. Para entender corretamente o texto filosófico, devemos localizar os termos mais importantes e suas noções. Virtude (arétè) designa toda excelência própria de uma coisa, em todas as ordens de realidade e em todos os domínios. Aristóteles a emprega assim, embora acrescente o valor moral. Disposição (héxis) é definida como uma maneira de ser adquirida. O latim traduziu héxis por habitus. A virtude só será habitus se for retirado desse termo o caráter de disposição permanente e costumeira, mecânica, automática.  Mediedade (mésotès): este termo remete tanto ao termo médio de um silogismo quanto à média, ou ao meio termo, que caracteriza a virtude. Aristóteles entende que virtude é média e ápice, partindo de um conceito geral, delimitando-o depois. Diz primeiramente que a virtude é agir de forma deliberada; depois, fala em agir em prol do mais alto bem. Ao falar dela como héxis, enfatiza uma capacidade adquirida, constante e duradoura, o que elimina a pretensa qualidade inata. Assim, ao se comportar moralmente, o homem deve também se comportar racionalmente, ou seja, uma razão que já passou pela prova dos fatos; a mediedade é a que o homem prudente determinaria. E determinaria em função dos homens superiores a ele. Por isso é oportuno aconselhá-los a imitarem os melhores. A mediedade opõe-se a dois vícios simétricos: o excesso e a falta. Essas práticas que não são virtudes são os vícios. A natureza moral jamais é natural, e sim o resultado de uma maneira de ser adquirida, para mais ou para menos, o que representa sempre um excesso. Por exemplo, a coragem é virtude delimitada por essa falta que é a covardia e esse excesso que é a temeridade. Portanto, a virtude revela-se como um meio termo. A virtude não é assim uma média aritmética dos excessos para mais ou para menos, ela é o vértice de eminência, ou seja, é ela quem diz qual é o vício para cima ou para baixo.
Kant (1724-1804): Entre os filósofos não cristãos dos tempos modernos requer especial atenção o sistema kantiano. Kant, em certo sentido, volta às doutrinas estóicas, enquanto procura formular uma ética que seja um fim em si mesma, sem leis heterônomas, nem sanções. Mas a Crítica da Razão Prática, que cria a nova moral, não fala de virtude, mas só de moralidade: esta consiste essencialmente no cumprimento do dever, ou seja, dos imperativos categóricos que a razão autônoma dita. Embora por outros caminhos, caiu no mesmo erro dos antigos estóicos, dando-nos uma ética vazia, que se destrói a si mesma, negando todo legislador, toda sanção, todo o fim ulterior de nossas ações.

Cristianismo: a Iluminação Bíblica e Evangélica das Virtudes

A leitura e a exegese da Sagrada Escritura fez com que se acrescentasse às virtudes cardeais já nomeadas e designadas pelos filósofos gregos e romanos, as virtudes teologais. Toda a vida dos cristãos é iluminada e orientada de forma evangélica pelo equilíbrio e pela força das virtudes, cujo fundamento está presente na Bíblia. Segundo a doutrina da Igreja Católica, e especialmente Gregório de Nissa, a virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem, sendo o fim de uma vida virtuosa tornar-se semelhante a Deus. Existem numerosas virtudes que se relacionam entre si, tornando virtuosa a própria vida dos cristãos. Santo Agostinho diz que “a virtude é uma boa qualidade da mente, por meio da qual vivemos retamente”. Santo Tomás de Aquino diz que “a virtude é um hábito do bem, ao contrário do hábito para o mal ou o vício”.
As virtudes humanas que são perfeições habituais e estáveis da inteligência e da vontade humanas. Elas regulam os atos humanos, ordenam as paixões humanas e guiam a conduta humana segundo a razão e a . Adquiridas e reforçadas por atos moralmente bons e repetidos, os cristãos acreditam que estas virtudes são purificadas e elevadas pela graça divina. Entre as virtudes humanas são constantemente destacadas as virtudes cardeais, que são consideradas como gonzos e as principais por serem os apoios em torno dos quais giram as demais virtudes humanas. As virtudes morais, consideradas nas suas diversas ramificações, são numerosas; mas todas se reduzem ou estão diretamente relacionadas às quatro virtudes cardeais. Assim chamadas por serem, digamos assim, os quatro gonzos em que giram todas as demais. Estas quatro virtudes correspondem efetivamente a todas as necessidades da alma e aperfeiçoam todas as suas faculdades morais. Correspondem a todas as necessidades da alma. Cumpre-nos, antes de tudo, escolher os meios necessários ou úteis à consecução do nosso fim sobrenatural: é o papel da prudência. É-nos também necessário respeitar os direitos de outrem: é o que faz a justiça. Para defendermos a nossa pessoa e os nossos bens contra os perigos que nos ameaçam, sem medo nem violência, necessitamos da fortaleza. Para usarmos dos bens deste mundo e dos prazeres sem ultrapassarmos a medida, precisamos da temperança. Assim, a justiça regula as nossas relações com o próximo, a fortaleza e a temperança as relações conosco, a prudência dirige as outras três virtudes. Aperfeiçoam todas as nossas faculdades morais: a inteligência é regulada pela prudência; a vontade pela justiça; o impulso irascível pela fortaleza; o impulso concupiscível pela temperança. Contudo, o impulso irascível e concupiscível não é  susceptível de moralidade, senão mediante a vontade; a fortaleza e a temperança residem tanto nesta faculdade superior como nas inferiores, que recebem a sua direção da vontade. Cada uma destas virtudes pode ser considerada como um gênero que contém partes integrantes subjetivas e potenciais. As partes integrantes são complementos úteis ou necessários à prática da virtude, a tal ponto que não seria perfeita sem esses elementos; assim, a paciência e a constância são partes integrantes da fortaleza. As partes subjetivas são as diferentes espécies subordinadas à virtude principal; assim, a sobriedade e a castidade são partes subjetivas da temperança. As partes potenciais ou anexas das virtudes cardeais possuem para com a virtude principal certa semelhança, sem atingirem, contudo, plenamente todas as condições da virtude. Assim, a virtude da religião é anexa da justiça, porque visa a tributar a Deus o culto que lhe é devido, mas não o pode fazer com a perfeição devida nem com estrita igualdade; a obediência presta aos superiores a submissão que lhes é devida, mas ainda aqui não há direito absolutamente rigoroso, nem relação de igual a igual.
Todas as virtudes cardeais se aplicam a conservar o meio termo entre os excessos opostos; no meio está a virtude. E na verdade, todas elas devem seguir as regras traçadas pela reta razão iluminada pela fé. Pode-se faltar a essa regra, quer ultrapassando a medida, quer ficando aquém; a virtude consistirá, pois, em evitar esses dois excessos. As virtudes teologais em si, não consistem no meio termo, porque no dizer de S, Bernardo a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida; mas, consideradas com relação a nós, devem também essas virtudes atender ao justo meio, ou, por outros termos, ser regidas pela prudência, que nos indica em que circunstâncias verdadeiramente nós podemos e devemos praticar as virtudes teologais; é ela, por exemplo, que nos mostra o que se deve ou não se deve crer, como se deve evitar juntamente a presunção e o desespero.

Prudência

Etimologia latina, prudentia, prudetiae, significa previdência, previsão, sabedoria, tino, inteligência, sagacidade, ciência. Sinonímia de austeridade e providência. Antônimo: descautela, doidice, imprudência, inconsideração, leveza, precipitação; Sinonímia de irreflexão. Prudência (flexão: prudenciar) virtude que faz prever e procura evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução; calma, ponderação, sensatez, paciência ao tratar de assunto delicado ou difícil. A Prudência é a virtude que dirige toda ação ao devido fim, e por isso procura os meios convenientes para que a ação seja em tudo bem feita, e, portanto aceita ao Senhor.
É uma virtude moral e sobrenatural, que inclina a nossa inteligência a escolher, em qualquer circunstância, os melhores meios para atingir os nossos fins, subordinando-os ao nosso fim último. Não é prudência puramente humana; é a prudência cristã. Não é a prudência da carne: esta torna-nos engenhosos para encontrar os meios de alcançar um fim mau, de satisfazer as nossas paixões, de enriquecer, de subir às honrarias. É condenada por Paulo, porque é inimiga de Deus, em revolta contra a sua lei, e inimiga do homem que conduz à morte eterna. Nem tampouco é a prudência puramente humana, que busca os melhores meios para atingir um fim natural, sem os subordinar ao fim supremo, como a prudência do industrial, do comerciante, do artista, do operário, que procuram ganhar dinheiro ou conquistar glória, sem se preocuparem de Deus e da felicidade eterna. A esses é necessário recordar que de nada lhes vale ganhar o mundo inteiro, se vierem a perder a alma. É a prudência cristã, que, apoiando-se nos princípios da fé, tudo refere ao fim sobrenatural, isto é, a Deus, conhecido e amado na terra e possuído no céu. Certo que a prudência não se ocupa diretamente desse fim que lhe é proposto pela fé; mas tem-no incessantemente diante dos olhos, para procurar, à sua luz, os melhores meios de orientar todas as nossas ações para esse fim. Ocupa-se de todos os pormenores da nossa vida: regula os nossos pensamentos para impedi-los de se extraviarem distantes de Deus; regula as nossas intenções para afastar o que lhes possa corromper a pureza: regula os nossos afetos, sentimentos e volições, para uni-los a Deus; regula até os nossos atos exteriores e a execução das nossas resoluções, para referi-las ao nosso último fim. Esta virtude reside na inteligência, julga e discerne o que, em cada circunstância particular, é mais apto para obter o nosso fim; é uma ciência de aplicação, que, ao conhecimento dos princípios junta o das realidades positivas em cujo meio temos de organizar a nossa vida a vontade intervém para ordenar à inteligência que se aplique à consideração dos motivos e razões que lhe permitem fazer uma eleição esclarecida, e mais tarde, para imperar a execução dos meios assim escolhidos. A regra da prudência cristã não é a razão só, mas sim a razão iluminada pela fé. A sua expressão mais nobre encontra-se no Sermão da Montanha, onde Jesus completa e aperfeiçoa a lei antiga, desembaraçando-a das falsas interpretações. A prudência sobrenatural retira a sua luz e inspirações das orientações evangélicas que são diametralmente opostas às do mundo. Para fazer a aplicação dessas orientações às ações de cada dia, a prudência inspira-se nos ensinamentos da Igreja e nos exemplos dos santos e das santas que viveram em conformidade com o Evangelho. Assim temos a certeza moral de não nos afastarmos do Evangelho. Os meios que a prudência emprega não são somente meios honestos, senão meios sobrenaturais: a oração e os sacramentos que, multiplicando as nossas energias para o bem, nos fazem chegar a resultados muito apreciáveis. Para se proceder com prudência, três condições são particularmente necessárias: deliberar com maturidade, decidir com sabedoria e executar com firmeza. Primeiramente impõe-se madura deliberação, para buscar os meios mais adequados ao fim pretendido, deliberação que deve ser proporcionada à importância da decisão que se há de tomar. Para tomar uma decisão com mais ponderação, é preciso orar ao Espírito Santo, refletir pessoalmente e consultar pessoas de critério, refletindo sobre o passado, presente e futuro. É preciso ter previdência, circunspecção e precauções. Previdência: prever é calcular previamente os esforços necessários para realizarmos os nossos desígnios, os obstáculos que poderemos encontrar no percurso, os meios de vencer, para que possamos empenhar o esforço necessário ao resultado que se pretende obter. Circunspecção: é necessário abrir bem os olhos, considerar as coisas e as pessoas, para de tudo tirar o melhor resultado possível; atender a todas as circunstâncias, para nos adaptarmos a elas; observar os acontecimentos, para deles tirarmos proveito se são favoráveis, para prevenirmos as suas consequências prejudiciais, se são contrários. Precauções: ainda quando se procurou prever tudo, nem sempre as coisas sucedem como havíamos previsto; porque a nossa sabedoria é limitada e falível. É necessário, na vida moral ter reservas, cercar-se de precauções, porque o inimigo espiritual tem contra-ofensivas; em tais casos é preciso recorrer às reservas de energia, à oração mais profunda, aos sacramentos, aos conselhos de uma pessoa capacitada. Assim não seremos vitimas de circunstâncias imprevistas ou falazes; não nos deixaremos perturbar, e, com a graça de Deus, acabaremos por levar a bom termo os projetos sabiamente traçados.
As diversas espécies de prudência: a prudência varia, segundo o procedimento pessoal e social. Quando tem por objeto o bem da sociedade: como se distinguem três espécies de sociedades, a família, o estado e o exército, assim se distinguem também três espécies de prudência: a prudência doméstica, que regula as relações dos esposos entre si e dos pais com os filhos ou reciprocamente; a prudência civil, que tem por fim o bem público e o bom governo do Estado; a prudência militar, que se ocupa do comando dos exércitos. A prudência não é menos necessária para o nosso governo pessoal, que para a direção dos demais. Para o nosso governo pessoal ou para a nossa santificação: permite evitar o pecado e praticar as virtudes.  Para evitar o pecado é necessário conhecer as suas causas e ocasiões, procurar e manipular bem os remédios. Isso precisamente é o que faz a virtude da prudência, e por isso mesmo sugere os melhores meios que se devem tomar, para suprimir ou atenuar essas causas, a estratégia que melhores resultados para vencer as tentações e até mesmo para delas tirar proveito. Para praticar as virtudes, e facilitar assim a união com Deus também é necessária a prudência. Com razão se comparam as virtudes a um carro que nos conduz a Deus, e a prudência ao cocheiro que o dirige: auriga virtutum. Serve de olhos à nossa alma, para ver o caminho que se deve seguir e os obstáculos que se devem evitar. É necessária para o exercício de todas virtudes: das virtudes morais, que se devem conservar num meio termo, evitando os excessos contrários; até mesmo das virtudes teologais, que se devem praticar em tempo oportuno e por meios apropriados às diversas circunstâncias da vida. Um meio essencial para aprofundar a vivência da prudência é a prática da oração e da meditação.

Justiça

Etimologia latina: justitìa, iustitiae: justiça, equidade. Antônimo: injustiça Flexão: justiçar. Qualidade do que está em conformidade com o que é direito; maneira de perceber, avaliar o que é direito, justo; o reconhecimento do mérito de alguém ou de algo; conjunto de órgãos que formam o poder judiciário; o conjunto de pessoas que participam do exercício da justiça; cada uma das jurisdições encarregadas de administrar a justiça; fazer justiça pelas próprias mãos tomar a si o encargo de julgar e punir; vingar-se; uso inicial maiúscula quando denota a instituição (a Justiça do Distrito Federal) ou quando usada em sentido absoluto (a Paz e a Justiça são bens por todos desejados). A Justiça é a virtude pela qual damos a cada um o que lhe pertence.
A palavra justiça significa muitas vezes na Sagrada Escritura o conjunto das virtudes cristãs; e assim é que Jesus proclama os que têm fome e sede de justiça como bem-aventurados. Mas no sentido restrito justiça designa aquela virtude moral sobrenatural que inclina a vontade a dar constantemente aos outros tudo o que lhes é estritamente devido. É uma virtude que reside na vontade e regula os nossos deveres rigorosos para com o próximo; assim se distingue da caridade, virtude teologal que nos faz considerar os outros como irmãos em Jesus Cristo, e nos inclina a lhes prestar serviços que a estrita justiça não reclama. Excelência: A justiça faz reinar a ordem e a paz tanto na vida individual como na vida social. Precisamente porque respeita os direitos de cada um, faz reinar a honradez nos negócios, reprime a fraude, protege os direitos dos pequenos e humildes, refreia roubos, rapinas e injustiças dos fortes, e assim estabelece a ordem na sociedade. Sem a justiça impera anarquia, luta entre os interesses rivais, opressão dos fracos pelos fortes, triunfo do mal. Se é tão excelente a justiça natural, quanto mais a justiça cristã que é uma participação da justiça do próprio Deus!
Distinguem-se duas espécies principais: a justiça geral, que nos prescreve dar à sociedade o que lhe devemos, e a justiça particular, que nos faz dar aos indivíduos o que lhes pertence. A primeira, que se chama também justiça legal, porque se funda na exata observância das leis, obriga-nos a reconhecer os  grandes benefícios que ela nos impõe, e prestando-lhe os serviços que ela espera de nós. Como o bem comum prevalece ao bem particular, há casos em que os cidadãos têm obrigação de sacrificar uma parte dos seus bens, da sua liberdade, e até mesmo de arriscar a própria vida para a defesa da cidade. Mas a sociedade tem igualmente deveres para com os cidadãos: deve distribuir os bens sociais e os cargos, não conforme o capricho e o favor, mas segundo as capacidades de cada cidadão, tomando em conta as regras da equidade e da participação. A todos deve proteção e assistência indispensável para que sejam salvaguardados os direitos e interesses essenciais de cada cidadão; o favoritismo para com uns e a perseguição para com outros são abusos contrários à justiça distributiva. A segunda, que se chama justiça particular, regula os direitos e deveres dos cidadãos entre si. Deve respeitar todos os direitos: não somente o direito de propriedade, mas ainda os direitos sobre os bens do corpo e da alma, vida, liberdade, honra, fama. O aprofundamento no estudo sobre a justiça cristã é designado como Teologia Moral e também Ética Cristã.

Fortaleza
Etimologia latina: talvez do francês antigo: fortelece “lugar fortificado” Sinonímia de fortificação. Antônimo de fraqueza. Flexão: fortalezar. Qualidade ou caráter de forte; força moral; firmeza; solidez, segurança; lugar fortificado para defender uma zona territorial; forte, fortificação. A Fortaleza é a virtude que nos dá coragem para não temer perigo algum, nem a própria morte, no serviço de Deus.
À virtude da fortaleza permanecem anexas quatro virtudes: duas que nos ajudam a praticar coisas árduas, a saber, a magnanimidade e a magnificência; duas que nos auxiliam a bem sofrer, a paciência e a constância. A magnanimidade, que se chama também grandeza de alma ou nobreza de caráter, é uma disposição nobre e generosa para empreender coisas grandes por Deus e pelo próximo. A munificiência ou magnificência: leva a empreender obras grandiosas, para glória de Deus ou o bem dos nossos semelhantes. É uma excelente virtude que se deve recomendar aos ricos, mostrando-lhes que o melhor emprego das riquezas que a Providência lhes confiou é imitar a liberalidade e magnificência de Deus nas suas obras. A paciência é uma virtude cristã que nos faz suportar com igualdade de alma, por amor de Deus e em união com Jesus Cristo, os sofrimentos físicos ou morais. A constância no esforço consiste em lutar e sofrer até o fim, sem sucumbir ao cansaço ou ao desalento.

Temperança
Etimologia latina: temperantìa, temperatiae, significa proporção, moderação, sobriedade. Sinonímia de austeridade, castidade e continência. Antônimo de gula, intemperança; sinonímia de estroinice, indecência e lubricidade. Qualidade ou virtude de quem é moderado, comedido;  sobriedade no consumo de alimentos e/ou bebidas. Temperança é a virtude pela qual refreamos os desejos desordenados de prazeres sensuais, e usamos com moderação dos bens temporais.
Temperança é uma virtude necessária para moderar essa inclinação ao prazer que tão facilmente nos afasta de Deus. A temperança é uma virtude moral sobrenatural que modera a atração para o prazer sensível, sobretudo para os prazeres do gosto e do tato, e o contém nos limites da honestidade. O seu objeto é moderar todo o prazer sensível, mas sobretudo o que anda anexo às duas grandes funções da vida orgânica: o comer e beber, que conservam a vida do indivíduo, e os atos que têm por fim a conservação da espécie. A temperança ensina a usar do prazer para um fim honesto e sobrenatural, e por isso mesmo modera o uso segundo as prescrições da razão e da fé.

Prudência, Virtude Cardeal


Conforme o Catecismo da Igreja Católica “a prudência é a virtude que dispõe a razão prática a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo. “O homem sagaz discerne os seus passos” (Pr 14,15). “Sede prudentes e sóbrios para entregardes às orações” (1 Pd 4,7). A prudência é a “regra certa da ação”, escreve Sto. Tomás citando Aristóteles. Não se confunde com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação. E chamada “auriga virtutum” (“cocheiro”, isto é “portadora das virtudes”), porque, conduz as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. É a prudência que guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena sua conduta seguindo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a praticar e o mal a evitar.”[1]
“Como a alma humana está sempre inclinada ao erro, mesmo quando possui as virtudes que a ajudam a agir bem, o Espírito Santo enche nossa alma com o dom de Conselho, pelo qual somos levados infalivelmente ao reto juízo sobre os atos que devemos realizar.” “J. Pieper situa a prudência como a primeira das virtudes e aquela que dá forma a todas as outras, ou seja, não há virtude sem a prudência. Postula que se o bem pressupõe a verdade e a verdade o ser, a realização do bem exige um conhecimento da verdade. Este saber não é o que dá a ciência, mas se refere ao contato efetivo com a realidade objetiva. O homem prudente é aquele que contempla a realidade objetiva das coisas e ao mesmo tempo o que quer e o que faz. Só a prudência aperfeiçoa a retidão impulsiva e instintiva do agir, as disposições naturalmente boas, para elevar-se ao grau de autêntica virtude. Enfatiza, no entanto, que a prudência não aponta diretamente aos últimos fins da vida humana, mas às vias que conduzem a tais fins. Na sua ação percorre três graus distintos e interligados: a deliberação, o juízo e a execução.
Tanquerey define a prudência como: “virtude que inclina o nosso entendimento a eleger, em todas as ocasiões, os meios mais apropriados para nossos fins, subordinando estes a nosso último fim. “ Destaca também três condições necessárias para o agir prudente: deliberar com maturidade, decidir com sabedoria e executar adequadamente. A deliberação deverá ter em conta o passado, o presente, o futuro e também a possibilidade de consulta a pessoas mais experimentadas na ação específica. Na decisão devem ser deixados de lado as paixões, as imprecisões, e os possíveis prejuízos como elementos perturbadores, examinando a fundo as razões que nos inclinam a uma ou outra parte, decidindo por fim, sem vacilações excessivas. Na execução não se deve retardar o que foi decidido e ter em conta os elementos de previsão para pôr o esforço proporcional à ação, considerando as pessoas e coisas que serão afetadas pela ação e tomando as devidas precauções para as possíveis falhas. “[2]

Etimologia

  A palavra prudência deriva do latim prudentia, que significa prudência, previdência, previsão, sabedoria, tino, inteligência, sagacidade, ciência. Aristóteles chamava a prudência, no grego, de phronêsis, termo traduzido muitas vezes por “sabedoria prática”, ou “discernimento”, e a definia como a excelência moral que leva à reta razão relativa à conduta humana. Prudência, na mitologia romana é uma deusa, que tem também a correspondente deusa grega, Métis. Segundo Raimundo Lullio, a prudência (sophrosyne - phronesis) é aquela virtude por cuja razão os homens sábios elegem aquilo que é bom (agathom), e evitam aquilo que é mau (katom), e amam os maiores bens em lugar dos menores, e temem mais os maiores males que os menores. A prudência principalmente é parte do entendimento (logistikon);  porque como o óleo de oliva dentro do barril de carvalho recebe dele o sabor e o cheiro, assim o entendimento habituado e revestido da prudência atrai a si a sua natureza, aquilo que está sob o hábito da prudência: bondade, grandeza, perseverança. Por isso, a prudência cresce na medida que os hábitos tomam o entendimento, a memoria e a vontade. E quando se perdem os hábitos ou se chega à privação deles, tem maior culpa o entendimento que a memoria e a vontade, porque a prudência mais participa com o entendimento, que com a memoria e a vontade. A prudência ilumina com a experiencia (aisthesis) os bons e grandes objetivos à vontade e à memoria, e por isso os amigos da prudência inquirem as experiências das coisas que se podem ver, imaginar, recordar, amar, e também ouvir, saborear e tocar. E neste inquirimento e pesquisa pensam muito tempo, até que a luz tenha iluminado a memória e vontade, para que seja feita a escolha ou eleição daquilo que é bom para amar, recordar e entender, ou para aborrecer. E em qualquer tempo a memória ajuda a fazer a eleição e o juízo, enquanto recorda as semelhanças de primeira natureza, ou as diferenças delas. Por isso a memória dispõe a vontade para recordar a amabilidade das semelhanças ou a ruindade das diferenças, para que a vontade se mova a amar a semelhança da bondade e da grandeza real e assim aborrecer as diferenças. Por isso, quando o entendimento e a memória tem concordância para representar as semelhanças para a vontade, contra as más semelhanças, inclinam-na a amar a prudência e aborrecer seus contrários, sendo assim que o poder é maior no entendimento e memória que na vontade. Não obstante, algumas vezes sucede que a memória e o entendimento representam a vontade. Boas semelhanças e más, e a vontade elege ou escolhe as más e repele as boas. E isso ocorre porque o entendimento e a memória usam de menor poder e da menor grandeza da bondade, perseverança, virtude e verdade, e que a memória recorda menores fins, e se esquece dos fins maiores.

Aspecto teológico-ascético

“O homem prudente, que se aplica a tudo o que é verdadeiramente bom, esforça-se por medir todas as coisas, todas as situações e todo o seu operar, pelo metro do bem moral. Prudente não é, pois aquele que — como muitas vezes se entende — sabe arranjar-se na vida e sabe tirar dela o maior proveito; mas aquele que sabe construir toda a sua existência segundo a voz da reta consciência e segundo as exigências da moral justa. Assim a prudência constitui a chave para a realização do encargo fundamental que Deus confiou a cada um. Este encargo é a perfeição do próprio homem. Deus entregou a cada um de nós a humanidade que tem é necessário que nós correspondamos ao encargo recebido programando-o como ele requer.
Mas o cristão tem o direito e o dever de observar a virtude da prudência, também noutra perspectiva. A prudência é como imagem e semelhança da Providência de Deus nas dimensões do homem concreto. Porque o homem sabemo-lo pelo livro do Gênesis, foi criado à imagem e semelhança de Deus. E Deus realiza o Seu plano na história da criação e, sobretudo na história da humanidade. A finalidade deste desígnio é , como ensina São Tomás, o bem último do universo. O mesmo desígnio torna-se, na história da humanidade simplesmente o desígnio da salvação, o desígnio que diz respeito a todos nós. No ponto central da sua realização encontra-se Jesus Cristo no qual se expressou o eterno amor e a solicitude do próprio Deus, Pai, pela salvação do homem. Esta é, ao mesmo tempo, a plena expressão da Divina Providência. Pois bem, o homem que é a imagem de Deus, deve ser, como de novo ensina São Tomás, de certo modo, a providência. Mas na medida da sua vida. Ele pode participar neste grande caminho de todas as criaturas para o termo, que é o bem do que foi criado. Deve,  exprimindo-nos ainda mais na linguagem da fé, participar no divino desígnio da salvação. Deve caminhar para a salvação e ajudar os outros a salvarem-se. Ajudando os outros, se salva a si mesmo.” [3]

Aspecto Místico

Vamos seguir aqui o que diz São João da Cruz. O Doutor Místico escreve que a prudência é a sabedoria dos santos, aquele que a possui sabe dirigir a vontade para Deus, praticando com perfeição sua lei e seus conselhos.[4] “Os mais sábios, segundo a sabedoria dos santos, deixam tudo para seguir o Cristo e dar-se inteiramente a Deus. Consagram a sua vida a Deus e entregam-se a um esforço ascético para atingir a perfeição na pureza do seu amor por ele. O Espírito Santo depressa lhes ensina que a contemplação não é um bem que tomamos por nós mesmos, mas um bem que nos é dado. Não devemos, pois, tentar consegui-la com esforços da inteligência, mas sim usar a razão, a serviço da fé, para dirigir cada ação e cada desejo para Deus e a sua glória.” [5]




Aspecto prático

“Ao longo de cinco dias, criou Deus muitas coisas e viu que tudo o que tinha feito era bom, já que tudo participava do seu Ser, que é o próprio Bem. No sexto dia, porém, conferiu existência a um ente que não somente estaria imerso no mundo, como os demais seres, mas que poderia compartilhar com Ele de toda a criação, através de uma alma espiritual, que quer pela vontade e que conhece por meio do intelecto. Tal é o homem, que recebeu o Ser em tamanha intensidade que, por meio de suas faculdades espirituais, está aberto para a totalidade do real, para o que lhe é exterior e para o que lhe é interior. Sua particular abertura para o real, manifesta o homem como uma criatura cuja natureza é inacabada e ele se apresenta enquanto um ser-em-construção, um “projeto” para o qual a responsabilidade que lhe cabe é a de dar prosseguimento e, em última instância, já em um plano ideal, termo.
O homem nasce inacabado. É justamente neste ponto que reside a razão última de sua existência já que ele está no mundo para completar (“passar a limpo em realidade-ato”) a criação divina, realizando-se a si próprio em meio a um processo para o qual o poeta Píndaro já há muito chamou a atenção: “Torna-te o que és!” Descobrir o que ele próprio é (o seu quid) nesse emaranhado no qual se encontra e agir em conformidade com isto são, ao mesmo tempo, os grandes problemas e as grandes soluções da existência do homem. Ele se constrói no próprio ato de ser e está chamado a ser o que é, nem mais, nem menos. Sua virtude está exatamente nesse meio termo e essa é a parte que lhe cabe na continuação do projeto divino, a partir do qual foi criado. Embora incompleto, o ato criador de Deus não deixou o homem desamparado para sua missão auto-realizadora, ao contrário, “equipou-o” com os instrumentos necessários. Assim, à semelhança do Criador que fez o mundo e “viu que ele é bom”, o homem tem, por natureza, uma atitude de amor, ou seja, de afirmação do que é. Amar alguém, alguma coisa ou lugar é, antes de tudo, reiterar o ato que o criou, aprovando-o. É, em última instância, compartilhar com o Criador do sentimento que o moveu à criação. É no agir que o homem se faz, na medida em que as ações que pratica sejam condizentes com a sua condição de abertura para a totalidade do real, traduzindo, neste sentido, a razão reta ao agir. Tal é o meio para se atingir o bem humano, qual seja, a sua auto-realização, o que é assunto da prudência (naturalmente, “prudência”, aqui, no sentido clássico de prudentia - a recta ratio agibilium). A prudência aparece, deste modo, enquanto razão prática e sabedoria concernente às coisas humanas. É a partir dessa virtude que o homem pode aplicar o conhecimento da realidade à realização do bem, como “proa inteligente”, nas palavras de Paul Claudel. Ela orienta o homem para o ser, para a perfeição do “fazer a verdade” (Jo 3, 21) através da ilimitada variedade que constitui o mundo. Todas as demais virtudes têm na prudência a matriz, já que a realização do bem, em qualquer aspecto ou situação só se dá em conformidade com a realidade e verdade das coisas, precisamente discernida pela prudência. Não adianta, por exemplo oferecer um casaco bem felpudo a quem tem fome em um dia de verão, mesmo que as intenções do doador sejam as melhores possíveis, sua ação não condiz com a realidade das coisas e, portanto, não atinge o objetivo proposto de fazer o bem. Assim, embora o sujeito tenha tido a vontade de fazer o bem, não foi orientado em sua ação pelo conhecimento da realidade.
Neste sentido, é por meio da prudência que o homem atinge a liberdade mais verdadeira que é ser capaz de agir como realmente quer, ou seja, uma ação que concretize suas aspirações naturais para o bem. A conquista desta liberdade é exatamente o que cabe ao homem na busca e realização de si próprio. Para tanto, ele conta com sua capacidade natural de abertura para a o mundo, que se dá por meio tanto da vontade (apetite espiritual) quanto da inteligência (conhecimento espiritual). É por meio, então destas duas vias que a ação prudente pode tomar forma, sendo ela constituída por duas etapas complementares. A primeira delas é de caráter cognoscitivo e diz respeito ao exame da realidade por meio da razão (entendida aqui como todas as formas de posse da realidade) que aconselha e julga o que é de acordo com o real, ou seja, com o bem humano. A segunda delas, mais importante até (já que se trata da razão prática, ligada ao agir), tem caráter diretivo e é aquela pela qual o sujeito age conforme aquilo que aconselha e julga como bom (oferecendo, por exemplo, comida e não qualquer outra coisa a quem tem fome). Estes dois requisitos indispensáveis à prudência fazem com que ela seja acessível apenas aos seres humanos, graças às faculdades espirituais de sua alma, que lhe proporcionam abertura para a realidade, como também por meio dos sentidos externos, próprio de todos os seres viventes, e dos sentidos internos. As capacidades proporcionadas por tais sentidos atuam de modo a constituir a prudência, como partes que lhe integram:
Memória: a prudência é gerada e desenvolvida pela experiência e pelo tempo. A experiência resulta da memória dos casos repetidos. Considera-se, assim, que os velhos estejam “mais aparelhados” do que os jovens para agir prudentemente, embora a prudência não lhes seja exclusiva e - tal como o “velho do Restelo” - tenham uma propensão para o pessimismo.
Intelecto: todo o processo da razão procede do intelecto e a prudência é, justamente, a aplicação da razão reta aos atos.
Docilidade: como os casos particulares são infinitamente diversos e não podem ser considerados por um único homem, é necessário que o homem esteja pronto para receber o ensino: da realidade e de outrem. Precisa estar aberto a aprender (e apreender) a realidade com suas próprias experiências.
Solércia: para a reta apreciação do que deve fazer, o indivíduo precisa estar pronto a descobrir o que convém a cada situação.
Razão: uma das partes do agir prudente, o conselho (inquirição, o passar de uma coisa para outra, aconselhar-se consigo mesmo), que é necessário ao raciocínio acertado, é função da razão. É pelo conselho que a prudência é aperfeiçoada, já que seu objeto são os meios a serem postos em prática em vista do bem humano. O conselho e a prudência são, então, correlatos.
Providência (ver de longe): determina com antecedência, prevendo se determinado ato será ou não verdadeiro caminho para a realização do bem. É a principal parte da prudência.
Circunspecção: ao contrário do significado de “introspecção carrancuda” que a este termo atualmente atribuímos na linguagem comum, trata-se aqui do exame e da comparação dos meios, levando em consideração as circunstâncias que se apresentam na realidade. Para o agir prudente, tanto os meios quanto os fins devem ser bons, o que é contingente devido à infinidade de circunstâncias possíveis.
Cautela: versa sobre os atos contingentes no sentido de que o mal seja evitado, mesmo estando mesclado com o bem, devido à multiformidade dos atos.
Para a realização da ação prudente, o homem conta, também, com algumas virtudes que, como partes potenciais, são anexas à prudência. São elas:
Eubulia: indagação racional sobre as ações que se deve praticar, o que proporciona a retidão em deliberar. Tal virtude, diferentemente da prudência, não é preceptiva, a ela cabe apenas, ordenar para a prudência.
Sínese: virtude que faz o homem julgar acertadamente.
Gnome: perspicácia de juízo que se aplica ao julgamento de casos que fogem às regras comuns.
De acordo com o tipo e o domínio das ações que se realizam, a prudência pode ser classificada em espécies distintas entre si, cada uma das quais corresponde uma parte subjetiva da prudência:
A arte de legislar ou de reinar: a prudência é a virtude própria do governante, a quem convém uma prudência de natureza especial e perfeitíssima, já que a sua administração, para ser perfeita, deve estar ligada à razão.
Política: é a prudência pela qual dispomos convenientemente o que pertence ao bem comum. Corresponde à retidão de direção que os indivíduos devem ter para que dirijam a si próprios na obediência das regras e leis estabelecidas para a vida em sociedade.
Econômica: corresponde à boa direção da vida no que se refere à sociedade doméstica.
Militar: prudência especial, que dirige particularmente as atividades militares. “[6]

Pecados contrários à virtude da Prudência: Soberba e Imprudência

“Com relação à prudência, a reta razão de agir, que ordena e inclina a razão ao fim último que é Deus, se contrapõe o vício: soberba: apetite desordenado da própria excelência e início de todos os vícios [STh.I-II,q84,a2,c].”[7] “São Tomás de Aquino considerou a soberba um pecado específico, embora possa ser encontrado em todos os outros pecados. A soberba é a forma básica do pecado. Ela teria sido a responsável pela desobediência de Adão, que provou o fruto proibido com a ambição de se tornar Deus. A soberba leva o homem a desprezar os superiores e a desobedecer as leis. Ela nada mais é que o desejo distorcido de grandeza. A pessoa que manifesta a soberba atribui apenas a si próprio os bens que possui. Tem ligação direta com a ambição desmedida, a vanglória, a hipocrisia, a ostentação, a presunção, a arrogância, a altivez, a vaidade, e o orgulho excessivo, com conceito elevado ou exagerado de si próprio. “[8]
Imprudência: A prudência pode ser impedida tanto por meio de vícios que incidam sobre suas partes referentes ao conhecimento (conselho e julgamento), quanto naquela que se refere ao desejar e agir. Tais vícios correspondem, então, a duas categorias distintas e dão origem a dois tipos de imprudência, quais sejam, por irreflexão (ligadas ao conhecimento) e por indecisão (referentes ao desejar e agir). Podemos classificar as imprudências, também, por outros dois critérios e temos então um tipo que se traduz em vícios manifestamente contrários à prudência e outro tipo que, embora também se oponha à prudência, guardam certa semelhança com ela. No primeiro dos casos, encontramos os vícios que se afastam das regras que tornam o agir de acordo com a razão reta. São vícios que têm como matriz principal a luxúria, ou seja, o fato de que a ponderação que caberia à tomada de decisão e à ação é corrompido pela sôfrega e descabida busca de prazer. Assim, o agir é imprudente devido a: Precipitação: que corresponde à ação movida pelo ímpeto da vontade ou da paixão, o que tem como resultado a desordenação do conselho. Em casos como este o sujeito age sem se ater aos passos ou etapas necessários à razão reta, quais sejam: memória das coisas passadas, inteligência das recentes, solércia no considerar os acontecimentos futuros, raciocínio e docilidade. Inconsideração: falta de retidão do juízo. É, portanto, uma falha no ato de ajuizar o que já foi observado a partir da realidade. A este vício se opõem as seguintes partes integrantes da prudência: circunspecção e cautela; e as potenciais: sínese e gnome. Inconstância: abandono de um bem maior a que antes se propunha em vista de paixões que desordenam a vontade. Falha-se, portanto, no ato de ordenar o que fora aconselhado e julgado pela razão. Ainda neste domínio das imprudências, encontra-se a negligência que constitui um pecado especial oposto à prudência devido à falta de solicitude do sujeito que empreende a ação. Trata-se de uma falta de eleição reta dos meios conducentes ao fim, o que é peça fundamental e decisiva do agir prudente. O segundo tipo de imprudência diz respeito aos vícios que, embora sejam opostos à prudência, guardam semelhança com ela por implicarem um certo uso da razão. Esse tipo de vício nasce da avareza, ou seja, da desmedida aspiração por toda a espécie de posse. O primeiro deles é chamado de “prudência da carne” e se traduz na aplicação de esforços com vistas a um fim que não está ligado ao bem humano, ao contrário, é o bem da carne que é eleito como fim último da vida. Chamaríamos, então, de imprudentes as ações pautadas exclusivamente por objetivos relacionados ao sucesso profissional, amoroso, financeiro, etc. e desvinculadas do bem do homem. Outro vício que guarda certa semelhança com a prudência é a astúcia, que corresponde ao uso de meios não verdadeiros com vistas a atingir um determinado fim. A astúcia é, então, aplicada ao enganar e compreende, em sua execução, ao dolo, ou seja, o induzir outrem ao erro por meio de atos ou palavras, e a fraude, que se aplica à execução da astúcia por meio de atos. Ainda no que se refere a este tipo de vício que apresenta certa semelhança com a prudência, temos uma outra espécie ainda mais sutil que é a solicitude por coisas temporais e não por bens espirituais. De três formas este vício pode se apresentar: se tomarmos as coisas temporais como o fim último de nossas ações, se nossos esforços forem demasiado exagerados (o que pode nos afastar dos bens espirituais) ou se tivermos temor exagerado em não alcançar nossos objetivos. A imprudência parece, assim, caracterizar a vida do homem moderno tão cheio de cobranças para que ele realize coisas (ganhe dinheiro, pague as contas em dia, case, compre coisas, estude, seja saudável, seja politicamente correto...). E mais, a solicitude também pode se converter em vício se for aplicada ao futuro, assim, não são prudentes as preocupações, o que torna ainda mais difícil a verificação de uma postura prudente em nossos dias. Entre nós, ao contrário, tem-se que prudente é aquele que tem uma gorda poupança no banco para lhe garantir a velhice.”[9]

Santa Clara e a virtude da Prudência
Escritos de Santa Clara

“Em sua prudência você certamente saberá que, com exceção das fracas e das doentes, para quem exortou-nos e até mandou usar de toda discrição possível com respeito a qualquer alimento, nenhuma de nós que fosse sadia e forte deveria comer senão alimentos quaresmais, tanto nos dias feriais como nos festivos, jejuando todos os dias. Entretanto, como não temos carne de bronze nem a robustez de uma rocha (Jó 20,6-7), pois até somos frágeis e inclinadas a toda debilidade corporal, rogo e suplico no Senhor, querida, que deixe, com sabedoria e discrição, essa austeridade exagerada e impossível que eu soube que você empreendeu.” [10]

Na quaresma de São Martinho e na quaresma maior, ninguém fale no locutório, a não ser ao sacerdote para se confessar ou por outra necessidade manifesta, o que está reservado à prudência da abadessa ou de sua vigária.” [11]

Não ousem trazer os boatos do mundo para dentro do mosteiro. E sejam firmemente obrigadas a não contar fora do mosteiro o que se fala ou se faz dentro que possa causar algum escândalo. Se alguma incorrer nesses dois pontos por simplicidade, cabe à prudência da abadessa dar-lhe a penitência, com misericórdia.” [12]

Fontes históricas

“Por isso, tendo abandonado a casa, a cidade e os parentes, apressou-se para Santa Maria dos Anjos, onde os frades, que montavam sentinela no recinto de Deus, receberam a virgem prudente que ia ao encontro de Esposo com a lâmpada não vazia, carregando eles mesmos fachos ardentes nas mãos.” [13]

 “A testemunha também disse que, sendo dona Clara abadessa do predito mosteiro, portou-se tão santa e prudentemente em seu governo, e Deus mostrou tantos milagres através dela, que todas as Irmãs e todos os que tiveram conhecimento de sua vida têm-na e reverenciam-na como santa.” [14]

“E as Irmãs creem que a santa madre intercede a Deus por elas no céu, ela que as governou na terra tão prudente, benigna e vigilantemente na Religião e no propósito da pobreza.” [15]

 “Também disse que tinham sido tão grande sua prudência e custódia na exortação das Irmãs suas súditas, que a sua língua não poderia dizer ou compreender de modo algum.” [16]

“E disse que no tempo em que entrou na Religião ela (Clara) era uma jovem prudente, com cerca de dezoito anos, e estava sempre em casa.” [17]


[1] Catecismo da Igreja Católica 1806.
[2] LUCCAS, Paulo. As virtudes fundamentais.
[3] Papa João Paulo II.
[4] Cf. 2S 29,12.
[5] MERTON, Thomas. Ascensão para a Verdade. Ed. Itatiaia, Belo Horizonte, 1958.
[6] Flávia Medeiros Sarti. Prudência e Educação Moral.
[7] www.aquinate.net
[8] Rosemeire Zago. Sete Pecados Capitais.

[9] Flávia Medeiros Sarti. Prudência e Educação Moral.
[10] 3CtIn 31-32.38-40.
[11] RSC 5,16-17.
[12] Idem, 9,16-18.
[13] LSC 15.
[14] ProcC 12,6.
[15] Idem, 13, 3.
[16] Ibidem, 14,4.
[17] Ibidem, 17,4.